quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Acordo tarde porque os lençóis colaram-se no meu corpo. Chego atrasado à primeira reunião da manhã, e como sou um homem de rituais, conduzo a reunião com o mesmo tempo de duração que esta teria se eu tivesse chegado a horas. E como este padrão se mantém ao longo do dia, chego mais tarde a todos os compromissos e acabo mais tarde todos os momentos.

No final do dia, entro a correr, ou melhor a voar, no gabinete e espera-me a última marcação do dia. Uma adolescente (ou seria melhor apelidá-la de "aborrescente?") espera-me na entrada, enroscada no sofá com uns auscultadores mergulhados nos ouvidos de onde jorra os últimos êxitos de "kizomba", debaixo de um blusão de penas de onde apenas se vislumbra um par de olhos vivaços e os joelhos gastos das calças de ganga.

Entro no gabinete e fecho a porta. Pouso a pasta e respiro fundo, retirando do fundo dos pulmões os restos do fumo do cigarro que vim a fumar (ou a queimar) do carro até ao portão do prédio. Componho o cabelo e a roupa e coloco a máscara da serenidade. Abro a porta e convido-a a entrar. Sentamo-nos nos sofás, num ângulo de 90º. Se fosse frente-a-frente haveria confronto e lado-a-lado seria intimidatório. Estamos na posição correta. Podemos começar.

Sabes porque estás aqui? a setôra mandou-me. mandou-te porquê? porque não me porto bem na escola e  a minha mãe não me consegue suportar em casa. só por causa disso? não acredito que te mandassem falar comigo apenas por algum mau comportamento...sim.

Olho pelo canto do olho para a ficha de sinalização. Indisciplina, roubos a colegas, vandalismo de salas de aula. Como é que aquele ser com ar frágil, acabada de sair de um tempo de infância, comete atos que sabe serem condenáveis socialmente?

A conversa simples desenrola-se durante meia hora e revela a origem desta atitude que não é diferente da de outros adolescentes da mesma idade: quer ser diferente.
Diferente de um pai que sai logo de manhã para o trabalho e regressa tarde, após umas boas horas no bar próximo e mais enfrascado do que uma caixa de J&B. Diferente de uma mãe demasiado cuidadora de toda uma família e que se esquece de si ao ponto de aguentar um casamento "pelos filhos" apesar de ter de andar de manga comprida em julho para ocultar uma outra nódoa negra, resultado da encomenda de J&B que recebe todos os dias em casa. Diferente de todas as setôras lá da escola que vão passando pelos alunos com ares de superioridade e só se lembram do nome dela para fazer "relatórios de ocorrência". Diferente das colegas que se valorizam por namorados roupas-de-marca telemóveis facebooks.

Sorrio. Vamos descobrir outras formas de seres diferente? Ela sorri.

6 comentários:

Maria Fonseca disse...

É mesmo isso que andamos cá a fazer. (sorriso)

CCF disse...

Mas eles não querem ser todos iguais uns aos outros? É o que parece se esperarmos à porta de qualquer escola secundária...de qualquer forma é tocante a história da miúda, oxalá a ajude a conseguir ser realmente diferente...
~CC~

Complexo disse...

Maria Fonseca,

(Sorrio)

Complexo disse...

CCF,

Espero contribuir de forma positiva. Vamos ver...

Tanita disse...

Ela quer provavelmente ser igual aos que têm familias onde lhes dão atenção, carinho e onde podem ser eles próprios e aceites com todos os defeitos e virtudes que têm. Numa casa onde haja amor e compreensão.

Beu, a Ruiva. disse...

Depois de ler este texto fiquei feliz de saber que existe alguém como tu capaz de ajudar os outros e encaminha-los de forma positiva. Parabéns. É bom saber que ainda existem pessoas assim, como tu :)

p.s. obrigada pela visita. Vim retribuir e fiquei fã :) Vou voltar.
Bjinho

Beu, a ruiva.